top of page
  • Instagram
  • Youtube
  • Facebook
Buscar

O Triste Fim de Dona Jovenira

  • Foto do escritor: Crônicas
    Crônicas
  • 12 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 11 de out. de 2025



Matthias Zavhery


"Uma pessoa arrogante se considera perfeita. Este é o principal dano da arrogância." - Leon Tolstoi


O cortejo fúnebre partiu logo após o emocionante culto de corpo presente. Dona Jovenira era muito querida de todos. Uma caravana de carros acompanhou o féretro até o cemitério. Dali até o jazigo, familiares, membros da igreja, parentes e amigos acompanharam todo o sepultamento.

Tinha acabado de completar oitenta anos de uma vida ativa dedicada ao cuidado à família e a um compromisso fiel e regular com a Igreja Evangélica, onde era uma dedicada participante das diversas atividades com um destaque especial para o coral.

Trinta anos antes tinha sido diagnosticado uma Doença Óssea Degenerativa do Quadril, em função de uma forte dor local incapacitante, cujo tratamento cirúrgico preconizado era  prótese total da articulação esquerda. A cirurgia, então,realizada foi um sucesso total, devolvendo à dona Jovenira a qualidade de vida merecida para os seus, na época, 50 anos de idade.

No final da pandemia da Covid, dona Jovenira escorregou e caiu na cozinha de sua casa sentindo muita dor na perna que tinha a prótese. Foi necessário chamar uma ambulância para levá-la para um serviço  de urgência ortopédica. Tudo foi muito rápido. Chegando na unidade pública, imediatamente os ortopedistas de plantão identificaram que a prótese havia saído do lugar. Isso não era novidade para a família, pois era um fato recorrente. Ambos saíram da sala de atendimento. Um deles se dirigiu a filha de dona Jovenira e, como nas outras vezes, disse que era possível colocar no lugar manualmente. Passado alguns minutos, o outro médico veio e perguntou se tinha plano de saúde. A resposta foi positiva. Sumiu de novo e, não demorou muito, retornou dizendo que já havia solicitado a transferência para um hospital particular, pois teria que operar o mais rápido possível.

Chegando ao hospital, foi cordialmente recebida por um jovem ortopedista que já tinha conhecimento de tudo da paciente, inclusive já sabendo do seu excelente  plano de saúde, informações  dadas pelo colega da unidade pública, que também era seu parceiro de cirurgias. Já estava até com a autorização para colocação de uma nova e valiosa prótese em mãos. Tudo muito rápido. Não deu para pensar e refletir sobre a situação. Quando a filha se deu conta, a mãe já estava no hospital particular sendo preparada para cirurgia. Marcada a operação para manhã seguinte, teve que ser cancelada, pois dona Jovenira testou positivo para Covid. Quando soube, o ortopedista ficou visivelmente desapontado, mas parecia que não pela paciente, mas por si mesmo. Estava como que “contando” com aquela cirurgia. Manteve a paciente internada proibindo-a terminantemente de sair da cama. Essa proibição soava como certo receio de que ela pudesse andar por meios próprios o que colocaria por terra a “extrema necessidade” da operação.

Três dias depois, dona Jovenira, alegre e confiante, foi levada para o centro cirúrgico. Saiu do quarto cantando com a filha músicas da igreja. Mal sabia ela que seria a última vez nessa vida que cantaria. Cinco horas depois, o ortopedista se dirigiu à filha dizendo que a cirurgia havia sido “um sucesso” e que a paciente ficaria na UTI nas primeiras vinte e quatro horas.

Dona Jovenira nunca mais recuperou a lucidez. Setenta dias de UTI com auxílio de aparelhos. Da UTI foi para o quarto e, pasmem, no dia seguinte mandaram para casa precisando de cuidados totais. Não comia, não andava, usava fraldas e não mais se relacionava com suas filhas, esposo, netos e amigos. Permaneceu poucos dias em casa e retornou para mais sessenta dias de UTI vindo a falecer.

O ortopedista desconhece até hoje que dona Jovenira morreu depois do grande sucesso de sua cirurgia. O anestesista nunca soube que dona Jovenira não acordou. Aliás, nunca soube que aquela  “raqui com sedação* da prótese de quadril” entre outras três anestesias que fez simultaneamente naquela manhã, era uma senhora, mãe, esposa, e  avó e que chamava-se Jovenira. Para hospital, o desfecho foi um grande alívio, pois depois de sessenta dias de UTI o plano de saúde não paga mais a conta mesmo!

Para a família ficou a dor insuportável do eterno vazio e a sensação de não saber bem o que aconteceu. Para a medicina apenas mais um número na estatística. E para os médicos, o que de fato mesmo interessou, foi saber se o plano de saúde pagou a conta da cirurgia.


*Raqui com sedação – A anestesia raquidiana também chamada de raquianestesia ou, simplesmente raqui, é bastante utilizada em cirurgias nas pernas e nos pés, quase sempre associada à sedação para que o paciente consiga relaxar e dormir durante toda a cirurgia.

 


 
 
 

Comentários


bottom of page