Outubro Rosa, Dezembro...
- Crônicas

- 4 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de out. de 2025

Matthias Zavhery
"A medicina nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez" - George B. Shaw
Quais as causas mais comuns de morte no mundo nos dias de hoje? Infarto? Câncer? Pneumonia? Violência? Talvez nenhuma dessas. Provavelmente o que mais mata no mundo na atualidade é o Diagnóstico. Sim, o Diagnóstico!
Rosalinda era uma mulher jovem que contava 34 anos de idade. Era mais conhecida como “Linda”. Casada e mãe de uma menina de 6 anos estava tentando engravidar pela segunda vez. Seu sonho era ter um menino. Uma mulher ativa, excelente dona de casa, e dona de um buffet para festas de casamento. Tinha uma saúde invejável. Alimentação saudável, atividade física e uma alegria e bom humor contagiantes.
Não tinha o costume de ir ao médico. Não tomava regularmente nenhum remédio e só usava medicamento quando extremamente necessário. Era daquelas que resolvia os problemas, na maioria das vezes, com chás preparados com ervas da sua hortinha caseira.
Era o mês de outubro e a academia que frequentava estava toda enfeitada de rosa. Tinha várias colegas de malhação, mulheres aparentemente “donas da verdade”, “bem resolvidas” e “empoderadas” que, ao contrário de Linda, estavam sempre em consultórios médicos fazendo check ups, buscando pílulas de rejuvenescimento e moldando o corpo com plásticas e preenchimentos. Uma delas teve sérios problemas com isso, inclusive chegou a ficar uns dias no CTI, por conta de uma infecção após uma “lipo”. Mesmo assim elas não desistiam. Parecia que valia a pena arriscar a vida pela vaidade e pela aparência.
De tanto que falaram, convenceram Linda de fazer os exames necessários para estar também em dia com a prevenção do câncer de mama. Linda fez os exames e “descobriu” um caroçinho, muito pequenininho, na mama esquerda que “acharam melhor” fazer uma biópsia. O Diagnóstico? Câncer. O tratamento? Ressecção de um quadrante da mama seguido de quimioterapia.
Logo em Dezembro, do mesmo ano, Linda fez a cirurgia. Tinha um plano de saúde, que pagava com muita dificuldade, mas o médico, que diziam ser a sumidade no assunto, não operava pelo plano. Venderam o carro para pagar, mas mesmo assim não foi suficiente. O pai dela também teve que vender o carro. Em janeiro do ano seguinte começou a quimioterapia. Sofreu horrores. Em Junho começou a ficar com os olhos amarelados, sem cabelo e com o corpo todo inchado. Foi internada durante dois meses. Em agosto teve alta e em outubro retornou ao hospital muito prostrada, emagrecida, anêmica. Fez várias transfusões de sangue, mas no início de dezembro ela morreu.
Ficou um enorme vazio no natal daquele ano. O marido ficou sem a esposa e sem o carro. Era vendedor e o carro era o instrumento de trabalho. O pai também ficou sem a filha e sem o carro que era seu sustento. Era motorista de aplicativo. A menina ficou sem a mãe naquele Natal e por todos os outros também. O médico não pôde dar o atestado de óbito, pois estava num congresso internacional de mastologia em Nova Iorque aproveitando para fazer compras de fim de ano com a família na time square. A princípio, quando a secretária ligou, ele não se recordava da paciente. Custou até lembrar do caso, afinal de contas fazia oito meses que tinha visto a paciente pela última vez. Mandou dizer que lamentava a “fatalidade”, pois da parte dele “a cirurgia havia sido um sucesso” e que ela devia ter morrido de “outra coisa”. As pessoas da família acataram o recado e mandaram agradecer ao médico por tudo o que ele tinha feito, desejando Feliz Natal.
A pergunta que não quer calar: Se linda não tivesse seguido o conselho das amigas ela teria morrido? Morreu de Câncer ou do Tratamento? Ou de “outra coisa”? Quem matou linda?



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