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BRASIL: A TUA CARA! (1)

  • Foto do escritor: Verdades
    Verdades
  • 19 de jul.
  • 3 min de leitura

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz.”

Ferreira Gullar – Corpo a Corpo com a Linguagem - 1999


Essa realidade acontece no interior do Brasil, numa região rural e pobre, onde existem pessoas reais que sobrevivem sorrindo, apesar de todas as adversidades familiares, sociais, científicas, religiosas, políticas e econômicas.

Antônio, o irmão mais novo, tem trinta e sete anos. Nunca foi a escola e não trabalha. É portador de deficiência mental grave desde a infância. Consegue se alimentar e se locomover sozinho, entretanto, não tem lucidez suficiente para sair na rua desacompanhado. Não tem benefício social e não é aposentado. Toma remédios controlados receitados pelo psiquiatra do serviço público.

Agostinho é o irmão do meio. Tem quarenta e um anos. Frequentou a escola até os 9 anos. Teve paralisia infantil e ficou com sequela em uma das pernas. Anda com muita dificuldade arrastando o pé esquerdo, mas mesmo assim não fica parado. A doença também deixou uma sequela cognitiva manifestado num déficit intelectivo. Assim como Antônio, Agostinho toma remédios controlados, mas tem autonomia para fazer suas alimentações sozinho. Entretanto, não pode sair na rua sem acompanhamento.

Amaro, o mais velho, tem quarenta e três anos. Estudou até os doze anos e teve que abandonar a escola depois de ser diagnosticado com esquizofrenia infantil. Toma remédios do psiquiatra, e sobrevive mantendo alternância constante entre a realidade e a fantasia. Apesar das instabilidades emocionais, se alimenta sozinho e, diferente dos irmãos, tem condições de sair de casa e andar pelas ruas. Graças a isso é ele que faz as compras da casa e paga as contas quando está lúcido.  É uma figura bastante conhecida de todos na pequena cidade.

Os três rapazes têm em comum a mãe. Filhos de três pais diferentes nenhum deles conheceu os genitores. Ficaram totalmente órfãos respectivamente aos cinco, nove e doze anos após perderem a mãe vítima da AIDS. Sobreviveram aos cuidados da avó materna que era viúva. Os demais parentes, tios e primos, tinham situação social semelhante, porém viviam distantes geograficamente da realidade dos rapazes.

A avó veio a falecer cinco anos depois. Os três irmãos permaneceram numa pequena casa, herança do avô, sobrevivendo com a pensão de um salário mínimo de Amaro. Um casal octogenário de vizinhos serve diariamente uma quentinha caprichada, que dá para o almoço e jantar.

As condições de higiene são bem precárias. Usam as mesmas roupas por dias seguidos e a cozinha e o banheiro da casa não são referência de limpeza para ninguém. Amaro, às vezes, de acordo com suas alternâncias de humor, faz uma faxina e lava roupas à sua moda. Mas muito de vez em quando.

Essa é uma pequena amostra da verdadeira vida da esmagadora população desse país. Longe das telas e dos holofotes a tragédia da realidade se faz presente e orbita os lares de todo mundo. Ninguém está imune.

Apesar de tudo, a vida cuida da vida. A motivação por viver vai muito além das convenções sociais, psicológicas, científicas e religiosas. É puramente um mistério.

 
 
 

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