Brasil: A Tua Cara! (2)
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“Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo.”
Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto
Adailtom nasceu cego. Foi mais uma das milhares de vítimas brasileiras da Síndrome da Rubéola Congênita na década de sessenta.
Tem sessenta e dois anos. Solteiro, nunca namorou ninguém. É analfabeto e jamais frequentou uma escola. Sua rotina diária é a mesma há décadas.
Acorda cedo. É levado para o banho pelo irmão, também solteiro, de sessenta e quatro anos que ainda não conseguiu se aposentar como lavrador. Ambos moram sozinhos num pequeno casebre com fogão à lenha, chão de terra batida, sem energia elétrica, numa longínqua roça do interior. Sobrevivem com a metade do salário mínimo do Adailton. A outra metade é do aluguel da terra.
Depois do banho, o senhor cego é colocado numa cadeira de madeira, onde permanece sentado durante todo o dia. Ali também fica a marmita com seu almoço. Quando come já está frio. Para as necessidades fisiológicas, um balde em frente à cadeira. Enquanto isso, o irmão está na batalha do sustento. Cuidando da pequena horta de subsistência, das magras galinhas e de uma pequena plantação de milho e cana que vende para feirantes da região.
Ao final do entardecer retorna e faz a limpeza dos dejetos e prepara um lanche antes de dormir. A ligação com o mundo se faz através de um pequeno e antigo rádio de pilha.
A vida se passou inteira sentado na cadeira de madeira sem falar uma palavra. Até quando o irmão foi encontrado morto já fazia três dias. Um comprador do milho se deparou com a cena.
Adeilton, que estava caído e desmaiado ao lado da cadeira foi levado para o hospital local. Ficou na UTI por nove dias e veio a falecer de infecção generalizada. Sorte a dele, afinal “Deus escreve certo por linhas tortas”.
E assim se passa a vida da imensa e esmagadora maioria da população brasil afora. Casos semelhantes de pessoas que não são vistas, simplesmente porque não são úteis e não significam nada, povoam os cantos do país de verdade.
O bilionário país das maravilhas só existe nas telas, nos discursos e nos bolsos dos “poderosos” dissimulados.
E ainda há quem reclama da vida...



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