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Olha a Água, Olha a Água!

  • Foto do escritor: Crônicas
    Crônicas
  • 9 de mai.
  • 4 min de leitura


Um homem perguntou a um Mestre como poderia controlar seus pensamentos. O Mestre respondeu dizendo que era muito simples, bastava “Não Pensar em Macacos”. O homem foi embora e no dia seguinte voltou desesperado suplicando ajuda e dizendo que “desde que o senhor pediu para que eu não pensasse em macacos, não consegui mais deixar de PENSAR NELES! Vejo macacos em todos os cantos”. - PROVÉRBIO ORIENTAL


Marcelo era um servidor público federal. Trabalhava como gerente num banco estatal. Já em vias de se aposentar, morava em um prédio situado na frente do seu trabalho, numa movimentada rua do centro da cidade. Na calçada do seu edifício funcionava o ponto final de algumas importantes e disputadas linhas de ônibus. Era intensa a movimentação de pessoas, principalmente nas primeiras horas da manhã e da noite, em função da chegada e saída do trabalho, respectivamente. Grandes filas de passageiros se formavam à espera de seus coletivos de destino.

Todos os dias, pontualmente às seis horas da manhã, um vendedor ambulante, conhecido como Buiú, começava a gritar em voz alta ininterruptamente:

-Olha a água, olha a água!

Pequenas pausas, que duravam somente alguns segundos, aconteciam esporadicamente. Momento em que uma venda tinha sido efetuada. O intervalo era o tempo necessário para receber, entregar a garrafa d’água e o troco. Logo em seguida:

-Olha a água, olha a água!

O bancário, já cinquentenário, era divorciado e tinha um filho já adulto que morava em outra cidade. Vivia sozinho no apartamento. Seu objetivo era juntar o máximo de dinheiro possível para ter uma aposentadoria “tranquila”. A conta bancária já era bem gorda, mas, mesmo assim, era muito rigoroso com seus gastos não se permitindo exceder em nada além do necessário para sobreviver. Exceção para despesas com planos de saúde, médicos, exames periódicos, medicamentos suplementos etc. Seu maior gasto era com a receita do Psiquiatra. Ele tomava pílulas para conseguir dormir, tomava pílulas para conseguir acordar, tomava pílulas para conseguir trabalhar e tomava pílulas para tentar conseguir se alegrar, mas para esse último item ainda não havia conseguido uma pílula eficaz.

Costumava, depois das eternas noites de insônia, despertar cedo e logo se levantar. Não conseguia ficar na cama depois das seis.

-Olha a água, olha a água!

Exatamente! O ambulante passou a ser o culpado da desgraça da vida de Marcelo. Não conseguia dormir, pois ficava pensando que as seis tudo ia começar de novo. Por não dormir passava o dia cansado e tinha dificuldade para trabalhar, pois sempre lembrava de olha a água, olha a água. E por ter dificuldade para trabalhar se sentia estressado. E por tudo isso sua vida havia se tornado um inferno (olha a água, olha a água).

O ambulante foi eleito o "Bode expiatório". Numa determinada manhã, depois de exaustivamente ter falado, em longas sessões de terapia, sobre olha a água, olha a água, depois de conversar com todos os seus colegas de trabalho sobre olha a água, olha a água, depois de incansáveis ligações para seu filho e sua ex-esposa para falar de olha a água, olha a água, resolveu procurar a fiscalização de postura da prefeitura para denunciar a causa.

Para sua sorte, o fiscal era seu cliente no banco. Contou a situação e o fiscal prontamente respondeu dizendo que resolveria o problema. Naquela mesma noite, Marcelo teve um piripaque, como de costume, e foi parar na emergência. Já era conhecido de todos no hospital. Vivia lá. Foi internado dois dias para ficar em observação. Teve alta e voltou para casa. Na manhã seguinte, pontualmente às seis, ficou aguardando olha a água, olha a água. Não aconteceu. A princípio se sentiu vitorioso. Parecia que sua tormenta havia cessado de vez. Mal sabia ele!

Foi comprar pão na padaria. Chegando da compra fez um comentário com o porteiro:

-Finalmente a paz. Acabou aquela gritaria do ambulante.

O porteiro achou estranho o comentário e respondeu:

- O senhor não soube o que aconteceu? Buiú foi proibido de trabalhar. Ele, coitado, havia perdido sua casa, seus pais, esposa e filhos e também a sua carrocinha de cachorro quente na última enchente. Sua casinha desabou. Era uma pessoa muito ativa e de bom coração. Apesar de tudo ainda ajudava os outros. Estava morando de favor ali na pensão e vendia água para refazer a sua vida. Já tinha conseguido um dinheirinho suficiente para dar entrada numa nova carrocinha. Ontem, um fiscal da prefeitura veio aqui e proibiu ele de vender. Ele saiu desnorteado e, quando foi atravessar a rua, não percebeu que o ônibus estava dando ré para estacionar. Foi atropelado e morreu na hora. Olha a água, olha a água!

Marcelo ouviu tudo e permaneceu em silêncio. Subiu para seu apartamento, tomou seu café da manhã normalmente e foi trabalhar. Marcou uma consulta com o psiquiatra para aquela tarde e foram dobradas as doses de todos os remédios.

No dia seguinte às seis da manhã, uma voz gritou:

-Olha a água olha a água!

Dessa vez era a voz da sua consciência. Essa voz nunca mais cessou. Ele começou a tomar mais três remédios do psiquiatra e de nada adiantou.

Os anos se passaram. Já está aposentado, mas continua com a preocupação de saber se os milhões no banco serão suficientes para sobreviver. Continua frequentando clínicas e hospitais, agora mais do que nunca. Parece que precisa fazer exames que certifiquem que está vivo sem doenças, mas, mesmo assim, apesar de todos os exames normais, ele não consegue acreditar nisso.

Buiú virou apenas mais um fantasma na vida de Marcelo. Só que, ao contrário dos outros, um fantasma de verdade. Buiú, quando vivo, incomodava, pois, na verdade, representava aquilo que Marcelo nunca teve: Vitalidade e Resiliência. E quando morto passou a representar aquilo que Marcelo sempre teve: Pavor e Medo.

OLHA A ÁGUA, OLHA A ÁGUA!

 
 
 

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