Que Horas São?
- Crônicas

- 5 de mai.
- 3 min de leitura
Que Horas São?
Ao entrar na sala dos Seixas, logo se avistava um enorme quadro, de uma tela pintada em óleo, retratando a imagem de uma belíssima paisagem de um céu cor de violeta e um enorme sol incandescente, com uma das metades submersas no oceano e a outra metade aparente, refletida nas águas do mar, formando um corredor avermelhado que se estendia do horizonte até o quebrantar das ondas nas areias da praia.
Aquela era a sala da casa de Gertrude Seixas, balzaquiana de 35 anos, mais uma vez grávida, desta vez de Alice que já estava para chegar naquele mesmo mês, e que tinha ainda que dar conta de Vaninha e de Sophia.
Naquela terça, estava marcada uma consulta para Vaninha no final da tarde, pois estava apresentando uma dermatite nas virilhas, que parecia ser das fraldas. Tinha que levar para o dermatologista para dar uma olhada, pois feridas já se formavam no local. Nas terças-feiras à tarde era o dia que tinha a atividade de desenho com guache, que Vaninha adorava, lá no Jardim da Ternura. Gertrude ligou para diretora e avisou que iria buscá-la no final da atividade para ir à consulta. A diretora, aproveitou a oportunidade para se queixar de Vaninha. Disse que ela estava muito pirracenta, mal criada e respondona, batendo nas colegas, só aceitava comida se fosse dada na boca e estava tirando as fraldas na frente de todo mundo. Chamou atenção também em relação às vacinas, uma vez que Gertrude estava devendo a cópia da caderneta de vacinação para deixar anexada aos documentos de Vaninha.
Sophia ia ficar em casa naquele dia, pois estava muito gripada para ir para creche. A madrinha dela, que era a melhor amiga de Gertrude, se prontificou a passar o dia cuidando da menininha.
Que horas são? Essa foi a pergunta que me fiz ao olhar para o quadro do sol na sala dos Seixas. Seis da manhã? Seis da tarde? O artista deixou essa dúvida.
Pois bem, nesse texto, você já sabe que Gertrude tem 35 anos, talvez tenha imaginado que Sophia tenha uns dois ou três aninhos, mas talvez não tenha pensado, nem de longe, que Vaninha (a vó Aninha) tenha 94 anos e que o Jardim da Ternura é um lar de idosos onde vive a vovó.
No livro chinês do I Ching (O Livro das Mutações), a imagem poética do sol no horizonte refere-se principalmente a dois hexagramas complementares, que ilustram o ciclo da luz em relação à Terra: o Hexagrama 35 (Chin / O Progresso) e o Hexagrama 36 (Ming I / O Obscurecimento da Luz).
O horizonte no I Ching serve como um lembrete visual de que a vida é feita de ciclos naturais. O nascer e o pôr do sol não são estados permanentes, mas transições contínuas.
O Progresso e o Obscurecimento da Luz, no fundo, são a mesma imagem. Da mesma forma, a mente humana também é uma só. O tempo é relativo e só existe para quem observa, mas nunca para quem é observado.
O tempo não existe nem para as crianças e nem para os idosos. E da mesma forma que o sol, que não se apaga nunca, a mente humana também não deixa nunca de existir.
O tempo, na verdade, só existe para os adultos que vivem e se identificam com a observação constante e ilusória da impermanência do mundo de fora, mas não existe e nunca existirá para as crianças e idosos quem vivem somente a eterna verdade do mundo de dentro.
Sophia vai crescer e um dia vai se transformar na vó Aninha. A vó Aninha, por sua vez, logo, logo, vai desaparecer, dando lugar a Alice. E assim sucessivamente por toda a eternidade.



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