Respeito à Memória
- Retratos

- 20 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 11 de out. de 2025

Era uma tarde de domingo na melhor casa de repouso para idosos da cidade. Um grande grupo de pessoas, parentes e amigos dos idosos ali internados, aguardava ansiosamente pela liberação da visita.
Durante a espera, uma psicóloga, um médico geriatra e uma assistente social se revezavam numa palestra de acolhimento. Falavam sobre os principais comprometimentos neuro-psicológicos que atingiam os portadores da doença de Alzheimer e as possíveis conseqüências nas relações familiares.
Seu Alcebíades era um senhor de oitenta e oito anos. Morava sozinho na mesma casa, desde o início do seu casamento, já fazia sessenta e oito anos. Estava lá desacompanhado, aguardando ansiosamente, para visitar sua esposa como fazia todos os domingos. Carregava em suas mãos um arranjo de flores coloridas. O casal tinha três filhos, onze netos e um bisneto, mas todos moravam em outras cidades.
Finda a palestra, foi iniciada a visita. Dona Elvira ocupava o quarto de número onze. Estava na clínica há 4 anos. Aparentemente ela não tinha mais nenhuma vida de relação. Era totalmente dependente dos cuidados de enfermagem para tudo.
O velhinho entrou no quarto e imediatamente se dirigiu à sua esposa dando um carinhoso beijo em sua testa e passou alguns minutos em silêncio acariciando o rosto e os ralos cabelos grisalhos. Era possível perceber nela que os seus lindos olhos azuis, fixos num horizonte distante, se umedeceram em lágrimas.
Seu Alcebíades tinha o costume de falar para ela, em voz alta, os fatos mais marcantes da vida do casal. Dona Elvira permanecia sempre imóvel . Mesmo assim ele não desistia. Falava naturalmente como numa conversa rotineira do casal nos áureos tempos.
O esposo relatava em gargalhadas uma travessura do filho mais novo do casal quando contava apenas três anos de idade. Nesse momento, adentrou ao quarto o geriatra da clínica. Seu Alcebíades não se intimidou e continuo a estória sob o olhar, um tanto quanto debochado e impaciente, do médico que estava ali somente para entregar o relatório mensal da paciente.
Passados dois minutos o doutor, que estava com pressa, não conseguiu mais conter a ansiedade e interrompeu o ancião:
- Não adianta nada o senhor ficar falando com ela. Ela não está entendendo, além do que, ela nem sabe mais quem é o senhor.
Seu Alcebíades olhou profundamente nos olhos do médico e respondeu com a autoridade de um velho sábio:
- Mas eu sei quem é ela!
O médico, muito sem graça, baixou a cabeça e, de fininho, se retirou do quarto deixando o relatório na cabeceira.
O idoso então continuou o animado papo com sua amada esposa.






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